Livro

Sick-lit, o novo “gênero” literário?

Eu acompanho o blog “Literalmente Falando“, da Íris, e hoje ela postou algo que chamou muito a minha atenção. Ela postou sobre uma reportagem que saiu no site do O Globo, que você pode conferir aqui. Essa reportagem fala sobre os “novos” livros que vem tratando sobre assuntos “polêmicos”, como anorexia, doenças terminais, depressão e suicídio. Eu acho importante falar desses assuntos no blog, porque, muitas vezes, nós, adolescentes, não temos com quem conversar sobre isso. Ou até mesmo os adultos.

A reportagem diz que algumas pessoas não estão contentes com essa exposição desses assuntos porque pode levar os adolescentes a comportamentos como os dos livros. Ou seja, se você ler “Os 13 Porquês”, que conta a história de uma menina que se suicidou e deixou fitas para explicar os porquês, automaticamente você é um suicida em potencial… Um minuto de silêncio pela pobre alma dessas pessoas.

Vou voltar no tempo agora. Segunda Geração Romântica, séc XIX. Nessa época, os autores escreviam para exaltar a morte. Temos Álvares de Azevedo, com a Lira dos Vinte Anos, que aceita a morte como sua amiga. E isso, para os teóricos, é lindo e aceitável. É ensinado no Ensino Médio. Mas quando se trata de literatura contemporânea, não podemos citar esses assuntos? Não há algo errado, uma inversão de valores?

Somos ensinados que estamos progredindo e evoluindo, somos bombardeados com pessoas falando que nossa cultura ocidental é a cultura mais evoluída de todos. Afinal, somos liberais, não temos tantos fundamentalistas como nas culturas orientais. Somos uma cultura aberta. Mas até certo ponto, porque falar de depressão, suicídio e outras coisas, é pecado.

Vou até dar um “depoimento”. Com 11 anos de idade, passei a ser uma criança depressiva. Não queria mais sair de casa, não queria ir mais para a escola, passava o dia inteiro em casa comendo, lendo e assistindo TV. Em casa, esse assunto nunca era falado. Eu tinha vergonha de chegar na minha mãe e perguntar se aquilo que eu tava sentindo era normal. Eu deitava na cama e pensava: ‘Será que é só comigo isso?’. E olha o detalhe: minha mãe é enfermeira. Minha mãe conhece essas doenças.

Fui crescendo, até chegar no segundo ano do Ensino Médio. O ano mais depressivo de toda a história da minha vida. Ainda com vergonha de falar com a minha mãe, eu comecei a escrever. Histórias, poemas, desabafos. Não pra ser publicado, longe disso, mas para mim mesma. Eu comecei a melhorar, porque eu tinha agora outra valvula de escape, que eram as palavras.

Talvez nem todo o escritor desse “gênero” Sick-Lit seja depressivo, ou tenha a doença do que ele está se tratando, mas esse livro, ao chegar nas mãos dos leitores, pode atingir a pessoa que passa por essa situação. Não é melhor quando você sabe que tem alguém com os mesmos problemas com você? Você não se sente confortável, quase como “normal” de novo? Quantas vezes você já não se pegou pensando: “Será que sou só eu que faço isso?” e, quando você descobre que não é, você se sente bem? Livros tem essa capacidade. O personagem é fictício, ele não existe, mas você tem empatia por ele.

Essas pessoas que não gostam e criticam esse tipo de livro são aqueles da geração de pai super protetores. O filho não pode correr, porque pode cair e se machucar. Meu filho não vai para a escola, porque ele vai sofrer bullying. Você precisa lavar a mão dez vezes antes de pegar meu filho no colo porque ele pode ficar gripado. Meu filho não vai ler esses livros porque ele não pode ficar sabendo que o mundo não é o mundo perfeito que eu criei ele. E essa geração de pais vão criar filhos frustrados.

Uma hora a gente cresce, sai das asinhas da mamãe e do papai. A gente descobre que o mundo não é só casa e escola, lugares que você se sente desprotegido. A vida vem pra te dar porrada atrás de porrada e ela não tem dó. Ninguém tem dó. Quando essa criança virar um adulto, não vai ter ninguém lá para ajudar. Esses filhos, que os pais tanto lutaram para proteger de todos os males do mundo, vão ser as mais depressivas no futuro.

Concluindo o post: Estamos no século XXI. Vamos abrir a cabeça. Livros são verdadeiros ensaios da nossa sociedade. Eles retratam a realidade, os medos, as felicidades, as frustrações do dia a dia. Eles estão ali para nos ajudar a entender melhor a nossa vida, entender melhor a nós mesmos e isso inclui falar de temas como anorexia, doenças terminais, depressão. O mal do século não é a depressão? Então por que criamos uma redoma em volta dos jovens para eles não terem contato com isso?

Vamos quebrar tabus. Vamos falar desses problemas. Por isso que deixo registrado no final desse post: Você precisa conversar com alguém sobre problemas? Qualquer um, não ligo, pode deixar um comentário com o seu email (que só eu vou ver), que eu vou te responder e te ajudar. Talvez eu seja jovem demais, mas eu sei como é ter problemas sérios. Eu vou tentar ajudar.

E, outra coisa, não vamos usar o termo “sick-lit”, certo? Talvez “reality-lit” seja o mais adequado.

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