Etc · Papo Sério

O que te move?

É o meu segundo ano de cursinho. É a segunda vez que vejo a porta da universidade bem pertinho de bem e ela se fecha antes que eu possa passar. Dessa vez fiquei em 84 na lista da UEL, subindo 30 posições da lista do ano passado. Perto. Tão perto que quase cheguei a sentir o cheiro de formol do laboratório de anatomia, mas não foi dessa vez, de novo. Não vou falar que olhei aquela lista e falei “tudo bem, vamos tentar de novo”, porque não foi assim. Eu tive vontade de desistir. O resultado da UEL saiu bem quando abriram as inscrições para um concurso público para a Caixa ou o Banco do Brasil, não me lembro, mas quase fiz a inscrição porque cursinho é um saco.

Tive que parar e pensar por alguns dias. Por que eu queria medicina? Por que eu estava – e estou – me submetendo a essa vida de estresse para entrar na faculdade que eu sei que não vai acabar depois? Por que estou me submetendo a essa vida de 90 negos lutando por 1 vaga no sonhado curso de Medicina? Sou mais uma dessas 90 pessoas que querem medicina porque veem nessa profissão um meio “fácil” de ganhar dinheiro e prestígio? Cheguei a conclusão que sim não

Não porque eu realmente gosto da ideia de me dedicar a cuidar do próximo, realmente gosto dessa ideia de pesquisas. Eu cresci nesse meio da saúde, tendo a  minha mãe como enfermeira e eu via toda essa movimentação e toda essa vida que existe num hospital que eu não consegui dizer não quando a vontade bateu, lá pela terceira série, de ser médica. Eu vou ser médica. Fim. Talvez essa seja a missão que tenho na Terra, como alguns acreditam. Talvez seja a área que eu tenho mais aptidão. Não importa, eu estou querendo esse curso porque eu gosto e não me vejo fazendo outra coisa.

Mas ao mesmo tempo, sim. Sim, eu estou fazendo esse curso porque quero dinheiro e quero ser reconhecida pelo que faço.  Se fosse só pelo amor a causa de cuidar dos outros, eu tinha feito enfermagem que é mais fácil e fim. Sim, eu quero ter dinheiro. Sim, eu quero poder entrar numa livraria e comprar quantos livros eu quiser porque não preciso contar as moedinhas que vou precisar para andar de ônibus. Mas o mais importante é: sim, eu quero ter dinheiro porque meu sonho maior é sair desse lugar.

Não me levem a mal: não é que eu não goste do Brasil ou da cidade que eu nasci, eu amo esse lugar. Mas sabe quando você se sente deslocada, como se você não pertencesse realmente a esse lugar? Odeio calor, odeio todas essas manias e trejeitos dos brasileiros, odeio carnaval. Ao mesmo tempo, amo a comida, amo a minha família que está toda aqui, acho linda as paisagens espalhadas por esse país enorme. Pensando nisso que eu descobri realmente o que me move a tentar medicina: o meu sonho maior, que é sair daqui. Conhecer o mundo. Europa, Ásia, África, Oceania, América.

Meu sonho é saber que tenho umas férias de duas semanas, poder comprar a passagem para o país que você quiser e passar um tempo lá turistando. Meu sonho é poder pegar minhas malas e ir morar em outro país, aperfeiçoar novas línguas, respirar novos ares, estudar. Meu sonho é nunca parar, estar sempre em constante movimentoSabe aquela lei da física chamada inércia? Então. Eu estava em repouso e minha tendência era permanecer em repouso se eu não tivesse saído dessa cidade e ter ido viajar dois anos atrás. Fui pra Orlando – clássico – e já foi o suficiente para fomentar essa minha necessidade de viajar. Sai da inércia. Uma força me colocou em movimento. E ainda outra força não agiu para me fazer retornar a inércia.

Eu quero ver o sol nascer em outros países e ver as constelações de outros céus, mas ao mesmo tempo, não quero ver o sol nascer de novo nesse mesmo lugar que estou agora. Pode ser saindo de casa e morando sozinha. Pode ser me mudando para outra cidade. Eu quero ser livre. Quero cortar esse cordão umbilical que me liga a minha família e sair pelo mundão.

Meus pais riem de minha quando falo que meu sonho é terminar a faculdade, trabalhar um pouco e comprar um apartamento em qualquer outro lugar do mundo. Eles riem de mim porque falam: você vai sentir saudade do Brasil. Talvez sim, talvez não. Eu voto pelo não. Quero poder ser livre e ter uma ideia louca de um dia pedir uma folga, estender meu fim de semana e ir para no Peru. Quero ter uma semana de férias e, não sei, parar no Congo, na Tailândia, Austrália, Canadá, Cuba.

O que me move, é a minha inércia. Enquanto uma força não vier e me tirar desse estado de movimento que me encontro, eu não vou parar. 

E você? O que te move?

Sei que estou prometendo resenhas.

Desculpa.

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