Etc · Papo Sério

Feminista sim, muito obrigada.

Feminismo ultimamente vem ganhando uma conotação negativa. Muita gente ainda acredita que feminismo é o contrário de machismo, ou seja, a submissão dos homens para então criarmos uma sociedade matriarcal onde todos os nascidos XY sejam colocados no seu lugar, que seria no fundo do poço.

Parem.

Feminismo não é isso. Feminismo é igualdade. Eu, como pessoa identificada como sexo feminino, quero ter os mesmos direitos que uma pessoa identificada do sexo masculino. Quero poder sair na rua com a roupa que quiser sem ter alguém me vigiando para soltar a famigerada frase: “Mas mulher que se dá o respeito não usa essas roupas”. Eu quero que meu pai não fale: “Mas filha minha não usa essas roupas” ou “Filha minha não faz isso”, assim como quero que o meu futuro marido não fale “Mulher minha não sai de casa vestida assim” e derivados. Aliás, eu quero ter o direito de escolher se quero ou não me casar, se quero ou não ter filhos, se quero ou não trabalhar. Assim como homem tem.

Por que esse conceito de igualdade é tão difícil? Entendo que é uma cultura existente lá da Antiguidade, mas por que ela permanece? Por que ela se perpetua?

Sempre gosto de assistir Fantástico. Apesar das muitas besteiras, de algumas vezes sai uma reportagem interessante daquela “revista eletrônica semanal”. Esse domingo, eles anunciaram que revelariam a verdade sobre como as mulheres vivem no Líbano, país de cultura muçulmana no Oriente Médio. Então, com uma chamada polêmica do tipo: “A vida das mulheres que são tratadas como objeto pelos próprios maridos” eles anunciaram a reportagem para o bloco que abriu com o “Dicionário da Paquera”. Nesse “Dicionário da Paquera”, pegaram uma repórter para andar entre os bairros boêmios de São Paulo e Rio de Janeiro para ensinar aos gringos as palavras nossas de cada dia, como “ficada” ou “selinho”. E, para coroar, chamaram um árbitro que atua no Brasileirão para “regular” o quadro.

Nossa querida repórter, então, tira um card com a palavra “piriguete” e pergunta para um gringo se ele sabe o que significa. Atropelando o gringo, as mulheres da roda gritam: “É a japinha”. A câmera então foca numa mestiça que usava uma saia curta e uma blusa decotada. A repórter ri, pedi para ela dar uma voltinha e depois pergunta para o árbitro: “Isso pode?”. O árbitro também ri e fala: “Como é época de Copa, pode. Se fosse outra situação, não. Cartão vermelho”.

Essa foi a reportagem antes da polêmica que traria a situação das mulheres no Líbano. Eu não estou brincando. A hipocrisia chegou a doer fundo no meu coração. Eu quase levantei da sala e desisti de assistir. O programa se coloca numa posição de denúncia contra o Líbano, mas, na própria reportagem, tratam a mulher como se fosse um objeto. Como se ela fosse um pedaço de carne ali no açougue que você escolhe como qualquer outra carne.  Cadê o sentido? Cadê a lógica?

Não estou invalidando o sofrimento das mulheres libanesas. Realmente, a sociedade muçulmana tende a ser muito mais patriarcal que a nossa sociedade brasileira. O problema é que vivemos num falso liberalismo moral que me enoja. Porque realmente não há problemas de ficar semi nua, ou até nua, em cima de um carro alegórico em fevereiro, mas Deus nos livre de você andar de saia curta na rua. Enquanto isso, na sociedade muçulmano, Alá não permita que essa mulher respire se ela não estiver usando um hijab. Duas culturas tão diferentes, mas que se converge num ponto que não devia mais existir: o desrespeito com as mulheres.

Mas, Dani, pelo menos aqui temos leis para nos proteger. 

Ok, entendo. Nossa situação realmente está muito melhor do que a mulher que não pode ter a opção de cobrir ou não o cabelo quando ela quer. Mas a minha indignação reside na hipocrisia. Tudo se torna tão maior, tão gigante, porque estamos falando que um país de origem muçulmana, que não segue as raízes judaico-cristãs que seguimos então tudo o que eles fazem parece tão errado porque somos programados a pensar assim. Deixem os preconceitos de lado, deixem todos os julgamentos de fundamentalistas extremos, porque todas as religiões tem seus fanáticos, e observem o quadro geral. Estamos realmente tão melhores assim que elas? Temos o direito de falar “não” quando não queremos fazer sexo com nosso namorado/marido? Temos o direito de nos defender? Ainda somos tratadas como lixo se saímos para nos divertir a noite e ficamos com mais de um cara, enquanto ele, que fez a mesma coisa, sai como se fosse o garanhão? Temos mesmo todos os direitos que clamamos ter, sendo que quando somos estupradas e vamos reportar, normalmente nos dizem “mas também, com essa roupa” ou “mas também, estava sozinha a essa hora da noite”?

Não somos violentadas no dia a dia com palavras do tipo “chupava inteirinha” quando passamos na rua? Não nos sentimos sujas quando entramos num ônibus e sentimos aquela encoxada, aquela passada de mão, que na cabeça do abusador é algo “inocente” e “natural”? Ainda não somos educadas para reprimir nossos desejos sexuais? Ainda não somos educadas para crescer e ter um marido, como se a educação e a chance de ter uma carreira próspera fosse só um capricho que vai acabar assim que tivermos nossos filhos? Ainda não somos obrigadas a querer um filho na nossa vida? Não ficamos com medo de passar em frente a um grupo significativo de homens? Não abaixamos a cabeça e passamos reto porque “esse é o nosso lugar”? Quantas mulheres você conhece que já não foi agredida, moral, verbal ou fisicamente pelo próprio parceiro, mas sempre releva porque “homens são homens mesmo”?

Ainda acha que realmente estamos tão mais desenvolvidos e melhores que os países muçulmanos?

Desde que comecei a engordar eu tenho ouvido a frase: “Tem certeza que você não quer emagrecer? Gorda assim nunca vai arranjar um marido”. E sempre ouvi a frase da minha mãe: “Com a personalidade tão forte assim, nenhum  homem vai te querer”. E aquilo for internalizando em mim de tal forma que sei que ajo diferente na frente dos homens porque onde já se viu uma mulher ser assertiva e ter opinião própria? Mesmo que o meu objetivo na vida seja ter uma carreira, minha vida, não “um homem”. Uma mulher é validada pelo estado do cabelo, pelas roupas que usa, pelo jeito de andar. Um homem é validado pelo emprego, pelo empreendedorismo e por quantas ele pega numa noite.

Não quero um mundo onde as mulheres dominem os homens. Não quero. Quero um mundo que eu posso escolher o que fazer com o meu corpo, que a máxima seja a frase “Meu corpo, minhas regras”, que eu possa andar na rua tranquila sem ter medo de ouvir alguma frase chula ou uma buzinada seguida de uma cantada, que eu posso ter opiniões, ser ouvida e não ser chamada de “vadia”. Um mundo onde os homens não acreditem que minhas emoções são definidas pela quantidade de sexo que tive ou pelo meu ciclo menstrual.

Basicamente, eu quero que todas as mulheres tenham poder sobre si mesma. Eu quero que todo ser humano tenha poder sobre si mesmo. E esse assunto ainda tem muito o que ser discutido.

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