Etc · Papo Sério

O dia que tudo mudou

Eu sei, já fazem alguns posts que eu estou prometendo resenhas. Desculpa. Mas algo chamado cursinho está me impedindo de ler, logo, estou aqui pra falar um pouquinho mais da minha vida. Senti que precisa externar isso, e aqui estou. Então, vamos lá. Pra vocês entenderem, vamos voltar no tempo, quando eu era criança.

Eu era uma criança normal. Sabe aquele tipo de criança fofinha com aquela gordurinha de criança? Então, essa era Daniele até os 8 anos de idade. Daniele era saltitante, feliz e alegre, não parava quieta num só lugar, o que resultou em muuuitos esportes que praticava e pulava de um pro outro. Já fiz karatê, natação, balé, vôlei, basquete, handball, amava andar de bicicleta, corria o dia inteiro. Eu era saudável. Feliz, saudável e ownt que fofinha que é essa menina. Até os 8 anos.

A partir dos 9, me interessei muito mais pelo basquete, e então esse foi o esporte que eu levei pra vida. Amo até hoje, aliás. E, aos 9, passei por uma fase chamada “estirão”. Sabe, quando a criança ta medindo 1,35 no começo do ano e de repente, boom, 1,60? Não? Pois é, comigo foi assim. Eu cresci muito na terceira série. MUITO. E parei ali, também, né?

Junto com o estirão, veio a puberdade e eu comecei a ganhar corpo. Sabe corpo? Bunda, peito? Esse tipo de corpo. Mas eu não gostava, acho que nenhuma menina nessa idade gosta. Além disso, meus pais se separaram e eu entrei numa depressão tão profunda que desencadeou alguns problemas em mim, que prefiro não contar muito, mas um deles é a ansiedade. Ansiedade, depressão, você já não ta feliz com o seu corpo, o que você faz? Come.

Eu comia muito, mas eu ainda tinha o basquete ali pra segurar as pontas. Uma época eu cheguei a praticar seis dias por semana porque estava para entrar no time infanto-juvenil de Londrina. E foi assim até minha oitava série. Eu engordei? Engordei. Estava em sobrepeso na oitava série. Ai, no começo do primeiro ano, eu me machuquei jogando basquete. Não era o primeiro machucado que tinha tido por causa dos jogos, mas foi o primeiro feio. Eu machuquei o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, que, aliás, é o ligamento mais defeituoso que já vi na vida. Não cheguei a romper, mas fiquei alguns meses de molho e, depois de muita fisioterapia, meu médico falou: “Olha, Dani, você ta recuperada, mas com o peso que você está, não posso te deixar voltar a jogar basquete”. Ou seja, eu já era deprimida, tinha ansiedade, a única coisa que eu gostava ainda tiraram de mim? Porra, eu fiquei mal pra caramba. Eu não pensei naquela época em “então vamos emagrecer para eu voltar a jogar”. Não. Eu joguei tudo pro alto, pensei “quer saber, nada da certo pra mim  mesmo, nem quero mais”. Comecei a engordar.

E engordar.

E engordar.

Eu sai da calça 44 que usava na oitava série para a calça 50 que uso atualmente. Meu maior problema foi no terceiro ano e no primeiro ano de cursinho. Eu engordei quase 20kg nesses anos de vestibulares porque a ansiedade tava demais e o bullying no colégio – que já existia – pareceu se ampliar demais. Tudo no meu terceirão estava se tornando muito maior. As vitórias eram gigantes, mas as derrotas e os baixos também eram. Perdi amigos, o bullying tava acabando comigo e dai minha mãe percebeu que talvez alguma coisa de errado comigo tinha. Fui no médico e ele me passou um antidepressivo que tomei por algum tempo até conseguir me “estabilizar”. Finalmente consegui me senti bem – rir, ter amigos e etc -, desde a terceira série. Mas não durou muito tempo porque não passei no vestibular e minha vida desandou de novo.

Final do ano passado, decidi que queria mudar. Minha mãe sempre falou para eu fazer a cirurgia bariátrica: perder todo o peso que tinha adquirido e não voltar a engordar mais. Foi o que fiz. Fui atrás do médico, eu conversei com ele e ele me disse que, com o meu peso, eu estava em obesidade II, o que não libera a cirurgia pela UNIMED, só se eu tivesse comorbidades.

E o que são comorbidades? São doenças e condições que agravam e/ou são agravadas pela obesidade. Hipertensão, diabetes, joelho, coluna, ovário micro policístico e várias outras que não sou médica – ainda – para falar para vocês. Eu tinha três: o joelho, que com o basquete, machuquei e me deu desgastes nas articulações, a coluna, que tinha escoliose, e ovário micro policístico.

Marquei todos os médicos. O do joelho olhou meus exames, me deu a autorização. Fiquei super feliz e pensei que finalmente conseguiria recuperar aquele corpo que tinha na sétima série. Ai fui no da coluna. Ele me pediu um raio-x, porque fazia um tempo que não fazia. Resultado? Minha escoliose tinha magicamente desaparecido. Eu perdi um pouco o chão naquela hora, mas eu ainda tinha o ovário, certo?

Não.

Fiz ultrassom na semana passada e descobri que não tenho mais nada. Eu não tinha um cistinho pra falar que eu tinha. Perdi meu chão de novo. Sai daquela sala de ultrassom quase chorando. Foi nesse quase chorando que pensei que tava na hora de mudar. Tava na hora de recuperar a vontade de ir comprar roupa, tava na hora de poder andar 100m na rua e não ficar ofegante, tava na hora de eu sentir vontade de sair de novo, tava na hora de eu voltar a me sentir bonita, de começar a me amar.

Eu me sentia mal, porque todas as minhas amigas eram mais magras que eu. Todas as minhas amigas, no meu olhar, são magras e lindas. Mas não importava isso para elas, porque elas se olhavam no espelho, apontavam pra uma gordurinha que só pra elas importavam, e falavam: “COMO EU TO GORDAAAA!”. Eu ficava lá com a maior cara de tacho e falava “se você é gorda, imagina o que eu sou” e dava aquela risadinha pra não soar tão rancorosa. Elas estão “lógico que não, você é linda”. Não, eu não sou. Eu tenho estrias na minha barriga, nos meus braços, nas minhas pernas, do lado do meu joelho. Eu tenho celulite. Meu IMC ta quase no 40. Aquilo doía tanto, mas elas não pareciam se tocar, porque continuavam a apontar para imperfeições que ninguém mais  via nelas, a não ser elas mesmas, e continuavam a falar daquilo na minha frente.

Eu sei, talvez elas não fizessem aquilo por mal, mas não nego que me machucava e dava raiva. Raiva porque faria tudo para ter um corpo daqueles e a vida perfeita que elas pareciam levar. Não igual a minha, que era rasteira, atrás de rasteira. Naquele dia do ultrassom, eu comi a última comida totalmente calórica desde então.

Entrei numa reeducação alimentar, comecei natação – que é meu segundo esporte favorito. Eu não quero ficar magra. Eu não quero ficar magra porque não quero entrar nessa sociedade que fala pra uma menina de 50kg que ela é gorda e que ela tem que emagrecer. Eu quero só minha vida de volta, entende? Eu quero poder entrar numa loja e falar que uso 44 e a moça me mostrar várias opções de calça. Quero ter opções de roupa a não ser esses camisetões que uso porque não se faz roupa bonita pra gente gorda que nem eu.

A questão é: me dói muito ver que me deixei chegar nesse ponto. Ainda tenho depressão? Sim, não posso falar que me curei, porque tem dias que levantar da cama é tão difícil que penso que daquele dia eu não vou passar. Ainda tenho a ansiedade? De algumas vezes acho que meu coração vai sair pela boca de não saber o futuro. Ter ansiedade e depressão é a pior combinação e não desejo pra ninguém. Você se importa demais e ao mesmo tempo não se importa com nada. Não nasci pra ser magra, eu gosto de comer, mas quero ser saudável. Quero poder ir na  balada e usar um salto sem reclamar depois de 10 minutos que não aguento mais meus joelhos. Cansei das pessoas vindo pra mim e falando “mas você tem um rosto tão bonito…” ou “não é que eu não goste de gordos, só to preocupado com a tua saúde”. Quero isso eliminado da minha vida.

E depois dessa seção “fala que te escuto”, termino esse post com uma coisa mais feliz:

Lollapalooza em uma semana, yey!

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